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Observatório Digital de Resiliência Climática do Recife

Metodologia

Como o Observatório separa investimento real de gasto de rotina, de onde vêm os números e por que a plataforma é organizada na ordem em que você a encontra.

Por que o Recife

Por que o Recife, por que o ODS 11

O Observatório não olha para os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de uma vez — isso deixaria a análise rasa demais para ser útil. A pesquisa foca no ODS 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis), e especificamente nas metas 11.1 (habitação segura), 11.5 (redução de desastres) e 11.b (planos integrados de resiliência).

O motivo é o próprio Recife. A cidade tem quase 1,5 milhão de habitantes espremidos em 218 km², numa geografia que combina planícies alagáveis com morros — uma combinação que historicamente produz risco de enchente e de deslizamento. A tragédia climática de maio de 2022, que matou mais de 100 pessoas, deixou claro que discutir sustentabilidade em Recife não pode ser só discurso: precisa virar defesa civil e infraestrutura de verdade.

Recife também é uma cidade de contrastes: tem o maior PIB per capita entre as capitais nordestinas, mas convive com desigualdade profunda e um déficit habitacional que empurra famílias de baixa renda para áreas de risco — as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Entender essa geografia foi o primeiro passo da pesquisa.

Mapa do Município do Recife dividido por Regiões Político-Administrativas (RPAs), com legenda de bairros por RPA
Figura 3 — Mapa do Município do Recife com divisão por RPAs. Fonte: Dias (2024).
O Filtro

Como separamos investimento real de gasto de rotina: a Matriz de Green Tagging

O orçamento público de uma cidade não tem uma etiqueta "isso aqui é clima". Os códigos contábeis que a Prefeitura usa (definidos por uma portaria federal de 2001) não foram feitos para isso — então não dá para simplesmente somar uma função orçamentária e chamar de "investimento climático".

Para resolver isso, a pesquisa aplicou uma metodologia chamada Green Tagging (baseada em critérios do Banco Interamericano de Desenvolvimento e do CICEF), adaptada especificamente para o orçamento do Recife. Na prática: cada linha do PPA 2022–2025 dentro das áreas de Urbanismo, Saneamento e Gestão Ambiental foi lida uma a uma e classificada — é gasto "verde" (investimento real em resiliência) ou é manutenção de rotina? E, se é verde, ele é primário (o foco principal da ação) ou secundário? É adaptação, mitigação ou transformação estrutural?

O quadro abaixo mostra um recorte real dessa classificação — por exemplo, a ação "Defesa Civil Permanente" foi marcada como investimento primário em adaptação, ligado à meta 11.5; já "Requalificação das ZEIS" foi marcada como investimento transformativo, ligado à meta 11.1 (habitação segura).

Quadro 1 — Matriz de Marcadores Orçamentários Climáticos aplicada ao Recife (2022–2025), com colunas de função, subfunção, programa, ação orçamentária, marcador BID/CICEF e meta ODS 11 relacionada
Quadro 1 — Matriz de Marcadores Orçamentários Climáticos aplicada ao Recife (2022–2025). Fonte: elaborado pelo autor (2026), adaptado de Pizarro et al. (2021) e CICEF (2025).

Esse filtro é o que permite ao Observatório dizer, com precisão, quanto do dinheiro público está de fato reduzindo risco — em vez de aceitar de olhos fechados o que a Prefeitura chama de "orçamento sustentável".

A Métrica

Por que medimos pela entrega, não pela promessa

Todo orçamento público tem várias "versões" do mesmo número: quanto foi planejado, quanto foi reservado, e quanto foi de fato pago. O Observatório usa sempre a última — o Valor Liquidado — porque é o único que comprova que a obra saiu do papel: a lei que rege as contas públicas brasileiras (Lei nº 4.320/1964) só considera uma despesa "liquidada" depois que a Prefeitura comprova que o serviço foi prestado ou a obra entregue.

Medir por aí, e não pela "Dotação Atualizada" (o valor autorizado, a promessa), é uma escolha deliberada: evita que a cidade pareça estar investindo em resiliência só porque separou o dinheiro no papel, quando na prática a obra nunca saiu do lugar — como aconteceu com a Requalificação das ZEIS, que teve R$ 1 milhão autorizado e R$ 0 executado.

Como a Pesquisa Foi Feita

As 3 etapas da pesquisa

Etapa 1: Revisão Bibliográfica; Etapa 2: Análise e Sistematização dos Dados; Etapa 3: Construção do Produto Técnico
Figura 4 — Metodologia de Pesquisa. Fonte: elaborado pelo autor (2026).
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Levantamento

Mapeamento do que já existe sobre orçamento público, mudança climática e as metas do ODS 11, para entender o que outras cidades e pesquisas já mostraram sobre a distância entre planejamento e execução.

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Análise e cruzamento dos dados

Extração dos dados reais do orçamento do Recife e aplicação da Matriz de Green Tagging para separar o que é investimento real do que é gasto de rotina.

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Construção do Observatório

Transformar os achados da pesquisa numa ferramenta pública, visual e interativa, em vez de deixá-los presos num documento acadêmico que só especialistas leriam.

De Onde Vêm os Dados

De onde vêm os números

Fluxograma: Dados Orçamentários cruzam Identificação de Gargalos (execução orçamentária, defesa civil, urbanismo sustentável), Avaliação Orçamentária (valores previstos, empenhados, liquidados), Extração de Dados (PPA, LOA, Portal da Transparência) e Mapeamento do ODS 11 (programas, ações, indicadores)
Figura 5 — Fluxograma das etapas, adaptado do modelo de Araújo (2023). Fonte: elaborado pelo autor a partir do modelo de Araújo (2023).

Os dados vêm de três fontes oficiais: o Plano Plurianual (PPA), a Lei Orçamentária Anual (LOA) e o Portal da Transparência do Recife, todos cobrindo o período 2022–2025. A partir daí, o Observatório cruza essas informações em duas frentes: de um lado, identifica onde estão os gargalos (execução orçamentária, defesa civil, urbanismo sustentável); do outro, avalia os três valores de cada ação (previsto, empenhado e liquidado) e mapeia como cada uma se conecta às metas do ODS 11 — por programa, ação e indicador.

A Arquitetura do Observatório

Por que o site é organizado nessa ordem

Os 3 módulos do Observatório em sequência: Módulo de Contextualização e Risco, Módulo de Radiografia Fiscal, Módulo de Síntese e Controle Social
Figura 6 — Arquitetura da Informação. Fonte: elaborado pelo autor (2026).

O Observatório não é um repositório de planilhas — é pensado como uma narrativa, na ordem em que você precisa entender a informação para poder agir sobre ela:

Módulo 1 — Contextualização e Risco

Primeiro, o porquê: a tragédia de 2022 e a vulnerabilidade real da cidade, em linguagem visual, antes de qualquer número de orçamento.

Módulo 2 — Radiografia Fiscal

Depois, os achados da pesquisa traduzidos em gráficos acessíveis: onde o dinheiro foi prometido, onde ele chegou de fato, e a distância entre resposta imediata e investimento estrutural de longo prazo.

Módulo 3 — Síntese e Controle Social

Por fim, o que fazer com essa informação: baixar os dados, entender a metodologia, e denunciar quando algo não bate.

Essa ordem — risco, depois dado, depois ação — é o que guia a estrutura de todas as páginas do site, não só da Home.

Para Quem É Isso

Uma ferramenta pra ser usada, não só consultada

O público principal do Observatório é a sociedade civil organizada, jornalistas de dados e os órgãos de controle (TCE, Ministério Público). Por isso a escolha por uma narrativa digital interativa, pensada pra funcionar bem no celular, em vez de um documento técnico ou uma planilha crua — o objetivo é reduzir a barreira entre o dado bruto e a pessoa que precisa cobrar uma resposta da gestão pública.

Glossário

Vocabulário do Observatório

Dotação Atualizada (A Promessa)
Limite de crédito autorizado pela Prefeitura para gasto em um ano. Representa a intenção política, não garante que a obra será feita.
Valor Liquidado (A Realidade)
Valor que atesta a entrega real da política pública — a métrica oficial usada pelo Observatório para medir eficiência de gestão.
Green Tagging (Marcador Climático)
Metodologia internacional (baseada no BID e no CICEF) que separa o "Cinza" (gasto rotineiro) do "Verde" (investimento real em resiliência).
Capacidade Absortiva
Ações de curto prazo e resposta imediata a desastres (lonas, geomantas, defesa civil).
Capacidade Transformativa
Obras estruturadoras de longo prazo que reduzem a vulnerabilidade pela raiz (requalificação de ZEIS, habitação segura).
Os 4 Eixos da Resiliência

Execução por eixo temático (2022–2025)

Dado real do PPA filtrado por Green Tagging — mesma base que alimenta os gráficos da Home.

Eixo Execução Resumo
Infraestrutura Climática 62,9% Puxado por manutenção de drenagem, mas trava em grandes obras como a Bacia do Beberibe.
Vulnerabilidade Habitacional 57,8% Taxa mediana, mas paralisado em projetos habitacionais nas ZEIS mais críticas.
Prevenção de Desastres 56,8% Foco em resposta emergencial; ações preventivas de longo prazo ainda insuficientes.
Governança Climática 27,4% A pior taxa — reflete o desmonte do planejamento integrado e da articulação intersetorial.
Notas Metodológicas

Fontes, limites e licença dos dados

  • Fonte dos dados: Portal da Transparência da Prefeitura do Recife + Tribunal de Contas do Estado de Pernambuco (TCE-PE).
  • Filtro ativo: a base não contém o orçamento inteiro da cidade — só as rubricas filtradas pela Matriz de Green Tagging, focadas no ODS 11.
  • Limitação: o Valor Liquidado atesta entrega contábil/de engenharia, mas não afere qualidade técnica nem satisfação da comunidade local — controle social in loco é indispensável.
  • Licença: base de dados aberta. Uso, cruzamento e divulgação são encorajados para pesquisa, jornalismo e controle social, citando a fonte: "Observatório Digital de Resiliência Climática do Recife (2026)".